BANDO DE TEATRO OLODUM – BA

O Bando de Teatro Olodum entrou em cena num final de tarde de Verão, no tablado informal de uma sala de dança no coração do Centro Histórico de Salvador. Naquele dia 25 de janeiro de 1990, chegava ao palco a companhia negra mais popular e expressiva da história do teatro na Bahia. No peito e na raça, o Bando agigantou-se. Em sua primeira apresentação, lançou a comédia Essa é nossa praia, composta por personagens baseados em tipos comuns das ruas do Pelourinho. Foi a primeira da Trilogia do Pelô. Os outros dois espetáculos ampliaram o conteúdo temático da peça inaugural. Em Ó paí, ó!, o elenco bateu na porta dos cortiços do Pelourinho e foi para dentro das casas conhecer a intimidade dos seus moradores. Já em Bai bai Pelô, discutiu as conseqüências sociais do projeto de recuperação proposto pelo governo baiano para este sítio histórico tombado como patrimônio da humanidade. A peça marcou o início da carreira de Lázaro Ramos, um dos nomes mais prestigiados da nova geração de atores brasileiros, e tirou do anonimato a cantora baiana Virgínia Rodrigues, na época era solista do Oratório de Santo Antônio.

A partir de Bai bai Pelô, a militância negra do Bando ganhou um engajamento ainda mais evidente. O trabalho seguinte, Zumbi, abordou a realidade social das invasões e favelas das metrópoles e homenageou o grande herói da luta dos negros contra a escravidão. O contato direto com a população pobre de Salvador foi reafirmado em Relato de uma guerra que (não) acabou, uma contundente reflexão sobre a violência urbana, que fortaleceu a criação teatral crítica do grupo diante de uma realidade estendida a aspectos culturais e sociais do Brasil como um todo.
O interesse pelo candomblé, já havia sido posto em prática na peça Onovomundo, enquanto lendas sobre os orixás pontuaram o enredo de Áfricas, o primeiro espetáculo infanto-juvenil do Bando, cujo conteúdo mostra um pensamento sobre a afrodescendência para um novo público alvo e celebra a beleza da vida com os erês de uma África plural, sem deixar de dizer às crianças que o racismo não é ficção.
Mas foi com outra investigação sobre as relações humanas, tendo a questão racial como eixo central, que o grupo criou o espetáculo mais popular e de maior longevidade do seu repertório. Nunca na história do teatro na Bahia uma montagem

encenada exclusivamente por atores e atrizes negros fez tanto sucesso e permaneceu tanto tempo em cartaz quanto o Cabaré da Rrrrraça, em evidência há 20 anos, com passagem por várias cidades brasileiras, além de temporadas internacionais em Portugal e Angola.
O Cabaré consolidou a popularidade local da companhia. Até que, em 2007, dez anos após a estréia desse verdadeiro cartão postal cênico, veio a visibilidade midiática no país com o filme Ó pai, ó e, na seqüência, foi ao ar o bem-sucedido seriado homônimo exibido na TV Globo. Quando o grupo baiano entrou em cena nos palcos pela primeira vez, estava escrito no programa de apresentação: “Escolhemos o teatro onde basta o ator/atriz, suas palavras e sua fome de emoção e contato”. Há vinte e oito anos, cada representante desta equipe faz valer com beleza e dignidade estas palavras, sublinhadas no conjunto dos 32 espetáculos que compõem seu repertório. Vida longa ao Bando, um bem necessário numa Bahia onde a festa e a dor dividem a mesma vizinhança.

O PAÍ, Ó!

Criado em 1992 pelo diretor Marcio Meirelles e pelo Bando de Teatro Olodum , o espetáculo Ó Paí ó, permanece atual pela síntese que faz do modo de ser e sobreviver dos moradores e frequentadores do Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador. São músicos, artistas plásticos, travestis, baianas de acarajé, proprietários de pequenos bares, associações comunitárias e blocos afros. Personagens reais que, pouco a pouco, foram expulsos do local para dar espaço a um fictício shopping turístico a céu aberto.
A montagem do Bando retrata um dia especial na vida desses diversos tipos que viviam no Centro Histórico: uma Terça-feira de Benção, quando a movimentação na área é ampliada e também as alegrias e sofrimentos dos moradores de uma região estigmatizada e abandonada pelas autoridades. Enquanto se preparam para curtir a farra da Terça da Benção, os moradores precisam enfrentar a falta de água no prédio (ação proposital da proprietária) e o extermínio de crianças da área a mando de comerciantes interessados na “limpeza étnica” do local para aumentar a atração de turistas. Tudo discutido com criatividade, consciência racial e humor, marcas definitivas das produções do Bando de Teatro Olodum.
A direção é de Márcio Meirelles, co-direção de Chica Carelli as músicas originais e a direção musical de Jarbas Bittencourt, coreografia de Zebrinha, Iluminação de Rivaldo Rio.

Marcos Uzel

Marcos Uzel é jornalista, mestrando em Cultura na Universidade Federal da Bahia e autor do livro “O Teatro do Bando: Negro, Baiano e Popular”.

FICHA TÉCNICA

Elenco:
Arlete Dias
Cassia Valle
Cell Dantas
Dadiele Lima
Ednaldo Muniz
Fabiana Milhas
Fabio Santana
Gerimias Mendes
Jamile Alves
Jorge Washington
Lazaro Machado
Luciana Souza
Leno Sacramento
Merry Batista
Naira da Hora
Renan Mota
Rejane Maia
Shirlei Sanjeva
Sergio Laurentino
Vagner de Jesus
Valdineia Soriano

Direção: Marcio Meireles
Co Direção: Chica Carelli
Coreográfia: Zebrinha
Assistente de coreografia: Arismar Jr
Direção Musical: Jarbas Bittencourt
Assistente musical: Ridson Reis
Engenheiro de Som: Jeferson Souza
Iluminação: Rivaldo Rio
Músicos: Daniel Vieira (NINE) e Yan Santana

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