Histórico

A MOSTRA DE TEATRO AFRO CENA surge como encaminhamento de pesquisa que partiu da longa trajetória que começou ainda na minha infância na cidade de Cavalcante, em Goiás, onde sempre estive em contato com as comunidades quilombolas Kalunga. Ainda menina os meus olhos brilhavam diante da grandiosidade das celebrações e festejos na comunidade.

Em 2005 ingressei no curso de licenciatura em Artes Cênicas na Universidade de Brasília – UnB, e com a minha formação passei a reconhecer nas comunidades negras rurais a riqueza e a teatralidade presente nas performances culturais ali representadas. Nesse reencontro com as minhas raízes comecei um incessante processo de investigação junto aos quilombolas das Comunidades Kalunga, com o objetivo de ampliar as possibilidades de fortalecimento das identidades dos jovens presentes nesta localidade, a partir do diálogo entre o teatro e a cultura afro-brasileira.

A cada estudo o fascínio por essa temática só aumentou e depois de uma vivência ainda maior, de muitas pesquisas e algumas noites mal dormidas, surge como resultado do meu mestrado na Universidade de Brasília – UnB uma dissertação com diretrizes de uma pesquisa que teve como objetivo sistematizar uma metodologia de ensino do teatro, visando a apreensão corpórea, a (re) significação de conceitos, o fortalecimento e a (re)apropriação da cultura local pelos jovens Kalunga.

Além da pedagogia do Teatro o escopo teórico-metodológico dessa pesquisa foi baseado em estudos da História Oral e da Antropologia Visual para o levantamento e análise de materiais pela e na própria comunidade como: danças, cantigas e relatos de cultura local. Onde busquei propiciar, por meio das técnicas teatrais, o estabelecimento de relações de aproximação e de distanciamento entre os sujeitos envolvidos e suas performances culturais. Tais ações possibilitaram o contato dos jovens com uma nova linguagem, aproximando-os dos costumes e tradições de sua comunidade e possibilitando a valorização do conhecimento legado pelos mais velhos aos mais novos.

Com a formação em licenciatura e com a pesquisa realizada no mestrado foi possível notar que um dos aspectos marcantes neste processo de ensino e aprendizagem é o modo pelo qual a memória desses jovens é acionada e (res) significada por eles.

Uma das motivações para a realização dessas pesquisas foi o fato das lideranças mais velhas da comunidade se queixarem da necessidade dos jovens Kalunga se deslocarem de suas comunidades até as sedes dos municípios para prosseguirem com o ensino médio. E o acesso à educação formal, que deveria cumprir com o papel de contribuir para a formação dessas pessoas, acabava por desmerecer tudo o que havia sido aprendido na comunidade. Pois ao chegarem às cidades, os jovens se deparavam com a discriminação e com o preconceito presentes na sociedade. E muitas vezes ao longo do processo de inserção eles acabavam negando suas tradições para serem aceitos e respeitados.

Em meio a esse contexto como pesquisadora, cavalcantense, mulher, atriz e produtora cultural que idealizei a MOSTRA DE TEATRO AFRO CENA. O objetivo desse trabalho é ampliar as possibilidades de construção do conhecimento da comunidade local, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e “a formulação de discursos cênicos por parte de pessoas que até há bem pouco estavam apartadas desse universo”, como nos esclarece Pupo (2012, p. 156) ao comentar a cena e as contrapartidas sociais.

A proposta desse festival é criar um momento de sensibilização, discussão e reflexão de temas voltados para cultura afro – brasileira, questões étnico-raciais, educação, economia criativa, saúde, acessibilidade e cidadania em que o teatro se apresenta como uma área de conhecimento em potencial para o trabalho com a comunidade.

Pupo (2012) chama ainda nossa atenção em seus estudos envolvendo coletivos teatrais, para a maneira como a cena tem se desdobrado em outras possibilidades e instituído novas relações de produção.

O processo criativo deixa de se restringir a montagem, que passa a ser apenas uma das suas facetas. O teatro transborda, portanto, de suas margens até aqui consagradas: a reflexão sobre o processo de criação, a realização de oficinas, viagens, encontros, ensaios abertos, intervenções nos seus ambientes urbanos ampliam a envergadura daquilo que a cena dá a conhecer. […] Abrir o apetite de teatro implica uma sutil e, muitas vezes, impoderável combinatória de fatores, que incluem desde a inserção do evento em determinado contexto, até a disponibilidade de companhia para ir até o local da apresentação. […] A cena se transforma porque se amplia o círculo dos nossos parceiros de criação. (PUPO, 2012, p. 153, 154, 166, 173)

Essa é uma oportunidade de ampliar os horizontes da comunidade local e dos visitantes a respeito da riqueza artística da cultura afro-brasileira.

Outro aspecto marcante da MOSTRA DE TEATRO AFRO CENA é que uma das ações desse projeto propõe a seleção de 30 jovens Kalunga para atuarem como estagiários do projeto nas etapas de pré-produção, produção e pós-produção, visando a formação de agentes culturais locais para atuarem como multiplicadores de ações na área de arte, cultura e educação.

É o encontro com os Kalunga que me permitiu a abertura de horizontes para reflexão de como a relação entre o teatro e a cultura local pode responder a certas demandas do ensino das Artes Cênicas, tanto para a educação formal quanto para a não formal.

O Teatro como processo que se respalda significativamente no coletivo, bem como na corporeidade, é uma área de conhecimento de grande relevância para sistematização de propostas e práticas que contemplem a diversidade da educação étnico-racial. E é desta maneira que me atenho nas possibilidades dialógicas desses dois universos para o fortalecimento das identidades negras.

Espero com isso poder suscitar em crianças, jovens, adultos e idosos uma identificação positiva com os valores ancestrais que estão inseridos na sua cultura e no patrimônio histórico brasileiro. De modo que eles “reconheçam criticamente os estereótipos de representação étnica” (SILVA, 2001 p. 129) encontrados na sociedade e saibam se colocar perante eles tanto verbal como corporalmente.

Acredito que a lei 10.639 seja ainda um grande desafio para a realidade da educação brasileira, tendo em vista que dentro desse cenário é constante uma série de problemas que acabam dificultando sua implementação na prática. Pensar na quantidade de professores brasileiros que carecem de formação para saber lidar com a educação da diversidade étnico-racial mostra que precisamos cada vez mais unir forças para transformar essa realidade, em uma perspectiva de diálogo do teatro com a cultura afro-brasileira e com a possibilidade de fortalecimento das identidades das novas gerações Kalunga.

Ao longo dessa trajetória de pesquisa, percebi que essa não é uma tarefa fácil, exige principalmente do pesquisador/educador/orientador a (des)construção de olhares verticalizados sobre a educação e isso deve ser um exercício constante para que se criem espaços educativos de compartilhamento de conhecimentos e saberes, no âmbito formal, não formal ou informal. Esse pode ser um dos caminhos para a conquista e ascensão social, no protagonismo da luta pelos nossos direitos.

O teatro me possibilitou a efetivação de uma experiência única junto com os Kalunga: a de vê-los envolvidos com o fazer teatral como uma possibilidade de se ocuparem com seus saberes e fazeres, de inventariarem sua cultura e de se recriarem através da memória. Todo esse envolvimento deles é o que me mostra que eles também se permitiram ser atravessados pelo acontecimento do teatro, experienciar, ir ao encontro de algo que foi significativo para suas vidas.

Convido – os a esse encontro: De ancestralidade, de teatro e de tantas outras possibilidades que não me caberia falar, já que nessa coletividade temos acesso aos nossos mistérios mais individuais.

Vamos celebrar a Cultura Afro Brasileira!!!!   Viva a Arte!!

Edymara Diniz Costa – Idealizadora

Referências:

COSTA, Edymara Diniz. O ensino do teatro em comunidades negras rurais: memórias e identidades Kalunga em cena. 2015. 151 f., il. Dissertação (Mestrado em Artes)—Universidade de Brasília, Brasília, 2015. http://repositorio.unb.br/handle/10482/19021

COSTA, Edymara Diniz. Políticas Públicas no movimento de memórias e identidades em comunidades negras rurais: possibilidades de diálogo entre educação e a cultura afro brasileira. Trabalho de conclusão de curso (especialização) História e Cultura Africana e Afro Brasileira – Universidade Federal de Goiás – UFG, 2016.

COSTA, Edymara Diniz; MATSUMOTO, Roberta Kumasaka. Memórias de um Quilombo: Kalungas em cena. Brasília-DF: Programa de Pós-Graduação em Arte – Universidade de Brasília (UnB); Mestranda; orientadora: Roberta Kumasaka Matsumoto; Bolsa CAPES; sócio-fundadora da ONG T.E.R.R.A. Brasília-DF: Departamento de Artes Cênicas e Programa de Pós-Graduação em Arte-UnB; professora adjunta. http://www.portalabrace.org/viireuniao/teorias/COSTA_Edymara_Diniz_MATSUMOTO_Roberta_Kumasaka.pdf

LARROSA, Jorge. Experiência e alteridade em educação. Revista Reflexão e Ação. Santa Cruz do Sul, v.19, n 2, p.04-27, jul/dez 2011.

PUPO, Maria Lúcia de Souza Barros. Quando a Cena se desdobra: As contrapartidas sociais. DESGRANGES, Flávio; LEPIQUE, Maysa. (orgs.). Teatro e vida pública. São Paulo. Hucitec: Cooperativa de teatro 2012.

SILVA, Maria José Lopes da Silva. As Artes e a Diversidade Étnico-Cultural na Escola Básica. In: MUNANGA, Kabengele (Org.). Superando o Racismo na Escola. Brasília: Ministério da Educação, Secretária de Educação Fundamental, 2001.